TrekkerCultura
TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 1 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em 1991. |
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A série JORNADA NAS ESTRELAS freqüentemente apresenta em seus episódios citações de clássicos da literatura, música e filosofia, além de referências históricas as mais diversas. Às vezes, por desconhecimento, deixamos de entender um diálogo inteiro, ou uma tirada bem bolada, uma piada. Desconhecer a fonte citada e, conseqüentemente, deixar de entender alguns dos diálogos de Jornada nas Estrelas é uma grande perda, pois são justamente eles, na minha opinião, que imprimem à série seu charme insubstituível.
Foi pensando nisso que resolvi iniciar uma pesquisa sobre as citações de Jornada nas Estrelas, cujos resultados gostaria de dividir com todos aqueles que, como eu, são fãs ardorosos da série. Em quase todos os episódios há a citação de algo interessante. Se o fato de saber a fonte de tais citações não altera o entendimento do episódio como um todo, pelo menos acrescenta algum conhecimento. E conhecimento nunca é demais, não é mesmo? Dizem que o filósofo grego Sócrates, após ter tomado a taça de cicuta com a qual tinha sido condenado à morte, começou a ler enquanto esperava o veneno fazer efeito. Um de seus discípulos teria lhe perguntado: "Mestre, por que lês se tua morte está tão próxima?" E Sócrates teria respondido: "Para morrer sabendo mais um pouco."
Bem, vamos começar com o
primeiro episódio da série, Where no Man Has Gone Before (Onde nenhum homem jamais esteve).
Mitchell, após ter sido atingido pela tempestade magnética, começa a passar por um
processo de mutação, tornando-se um ser com super poderes. Em observação na
enfermaria, ele "devora" a biblioteca da nave e, numa conversa com Kirk, faz
menção à filosofia "infantil" de Spinoza. Quem foi Spinoza e por que Mitchell
o considerava infantil? Por que não concordava com ele?
Benito Spinoza (1632-1677) foi um filósofo
judeu holandês, grande admirador do filósofo e matemático francês Descartes, cuja
filosofia, inspirada no modelo matemático (geométrico), sustentava que só existe uma
substância essencial no universo, da qual o espírito e a matéria não passam de
aspectos diferentes. Essa substância única é Deus, que se confunde com a própria
natureza. Tal concepção do Universo era puro panteísmo, mas baseava-se na razão e não
na fé, e pretendia exprimir idéias científicas sobre a unidade da natureza e a
continuidade de causa e efeito ou seja, todo fenômeno está completamente
condicionado pelos que o precedem e condiciona com o mesmo rigor os que o sucedem.
Spinoza interessava-se também por questões éticas e chegou à
conclusão de que as coisas que o homem mais preza riqueza, prazer, poder e fama
são vazias e vãs. Imaginou então um bem perfeito, capaz de proporcionar uma
felicidade irrestrita e duradoura a todos que o alcancem. Através do raciocínio
geométrico, tentou provar que esse bem perfeito consiste no "amor a Deus", isto
é, na adoração da ordem e da harmonia da natureza, ordem essa que não pode ser
interrompida em benefício deste ou daquele indivíduo. Só nos podemos libertar de
esperanças irrealizáveis reconhecendo em nosso íntimo que a ordem da natureza está
inalteravelmente fixada e que o homem não pode mudar seu destino.
Em outras palavras, conquistamos a verdadeira liberdade quando
compreendemos que não somos livres. Talvez Mitchell tenha considerado tudo isso infantil
porque, primeiro, ele não iria adorar a Deus, pois que julgava ser o próprio Deus;
segundo, acreditando-se Deus, ele poderia alterar todas as coisas, mudar seu próprio
destino. Em suma, ele era livre para decidir tanto a própria vida quanto a vida dos
outros. As principais obras de Spinoza são: Princípios da Filosofia de Descartes e
Meditações Metafísicas (1663), Tractatus Theologico-Politicus (1670), Ethica e
Tractatus Politicus.
Bibliografia: BURNS, Edward M. História da Civilização
Ocidental. Globo, Rio de Janeiro, 1969.