TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 11 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em 1993. |
Para concluir o episódio The Conscience of the King (A Consciência do Rei), que, como eu disse, é o mais explicitamente shakespeareano de toda a série, falaremos de Júlio César, uma das peças históricas de Shakespeare. Júlio César é uma das figuras históricas que mais causam controvérsias entre historiadores. Alguns o exaltaram como herói sobre-humano, outros chegaram a tachá-lo de insignificante. Convém evitar os extremos, já que eles raramente se aproximam da verdade. Mas o fato é que essa ambigüidade aparece até quando ele é mencionado em Star Trek. Em mais de um episódio ele é apontado, inclusive pelo Capitão Kirk, como um ditador implacável. Mas o próprio Kirk parece não se importar quando as mulheres o comparam a César. Todos certamente se lembram da cena do episódio A Consciência do Rei em que Kirk e Lenore estão no convés de observação da nave e ela o chama de "César das estrelas". Kirk não parece nada ofendido; muito pelo contrário, fica encantado e lhe dá um beijo.
Quem foi Júlio
César e qual sua importância histórica? O
período que se estendeu do fim das guerras púnicas, em 146 a.C. a aproximadamente 30
a.C., foi um dos mais turbulentos da história de Roma. A nação estava colhendo os
frutos da violência semeada durante as guerras de conquista. Tornaram-se comuns, nesse
tempo, os conflitos de classe, assassínios, lutas entre ditadores rivais, guerras e
insurreições. Num cenário de crise, é comum o povo esperar por um "salvador da
pátria", um líder que represente seus interesses no poder. De fato, surgiram
naquele período vários líderes para abraçar a causa do povo e os mais famosos foram Pompeu
(106-48 a.C.) e Júlio César (100-44 a.C.). Durante algum tempo, eles se
uniram para tentar obter o controle do governo, porém mais tarde tornaram-se rivais e
cada um tentou angariar para si o apoio popular. Pompeu ganhou fama como conquistador da
Síria e da Palestina, enquanto Júlio César investia contra os gauleses, acrescentando
ao estado romano os territórios hoje ocupados pela Bélgica, Alemanha e França. Em 52
a.C., o Senado romano inclinou-se para Pompeu e conseguiu sua eleição como cônsul
único. César, então em campanha na Gália, acabou sendo declarado inimigo do estado, e
Pompeu conspirou com o senado para tirar-lhe todo o poder político. O resultado foi uma
luta de morte entre os dois. Em 49 a.C. César atravessou o rio Rubicão (que separava a
Itália da Gália Cisalpina) com seu exército e marchou sobre Roma. Ele sabia estar na
ilegalidade, e foi ao atravessar esse rio que ele teria dito a célebre frase: "A
sorte está lançada" (em latim, "Alea jacta est").
Desde então este episódio tornou-se metáfora de uma decisão crucial.
Pompeu fugiu para o Oriente, na esperança de juntar um exército
suficientemente grande para retomar o controle da Itália. Em 48 a.C., as forças dos dois
rivais encontraram-se em Farsália, na Grécia. Pompeu foi derrotado e, vendo-se perdido,
fugiu para o Egito, mas lá foi assassinado por agentes do rei egípcio Ptolomeu XIII, que
queria agradar ao vencedor. César, que chegou ao Egito em seu encalço, resolveu intervir
na política daquele país. Aliou-se a Cleópatra e a fez rainha do
Egito, agora vassalo de Roma. Enquanto isso, Farnaces, rei do Bósforo Cimeriano, na Åsia
Menor, erguia-se contra Roma. César parte para lá em campanha militar e obtém uma
vitória tão rápida que manda a seguinte mensagem para o senado: "Vim,
vi, venci" (em latim, "Veni, vidi, vici"). Depois disso
voltou a Roma e não havia mais ninguém que se atrevesse a desafiar seu poder. Tornou-se
um ditador e, para todos os fins práticos, estava acima da lei. Havia rumores de que
tencionava coroar-se rei, e foi com base nessa acusação que ele foi assassinado em 15 de
março de 44 a.C. por um grupo de conspiradores chefiado por Brutus e Cassius.
Na peça de Shakespeare, a cena do assassinato é uma das mais famosas. César havia
chegado ao recinto do Senado quando os conspiradores o cercaram. Cassius deu-lhe a
primeira punhalada, no pescoço. César ainda tentou defender-se, mas foi abatido por
dezenas de outras punhaladas. Só parou de defender-se quando viu Brutus, seu favorito,
entre os assassinos. E disse: "Até tu, Brutus?" (na
peça a frase está em latim: "Et tu, Brute?" - ato III, cena 1).
Com certeza, César não foi nenhum
"salvador" de Roma, pois desprezou a constituição e governou como um ditador.
Mas teve o mérito de voltar a atenção de Roma para a Europa Ocidental, quando outros
conquistadores rumavam para o Oriente. Com a ajuda de astrônomos criou o calendário
juliano, depois corrigido pelo Papa Gregório XIII (1572-85) e usado até hoje. Nada mais
justo que o nome do sétimo mês do ano seja em sua homenagem.
A ação da peça
Em tempo. Na cena do convés de observação, Lenore olha as
estrelas e diz: "Estrela, estrela vésper, eu queria ter, eu queria poder - lembra
disso, capitão?" Ao que ele responde: "É muito antigo". Não se trata de
nehuma citação de Shakespeare, mas de um versinho popular em inglês, de autor anônimo,
que as pessoas dizem ao fazer um pedido à primeira estrela avistada no céu:
Starlight, starbright
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