TrekkerCultura
TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 15 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em agosto de 1998. |
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Depois de quatro anos, o TrekkerCultura está sendo retomado de onde parou, em 1994. Nesses quatro anos, estive envolvida em outros projetos, o que me impediu de dar continuidade ao boletim. Para falar a verdade, eu poderia tê-lo retomado há mais tempo, mas, para tanto, faltava-me um instrumento valioso: um computador decente. Até poucos meses atrás, tudo o que tinha a meu dispor era um jurássico 286! Agora, com um Pentium bem ajeitadinho, devidamente "plugado" na Internet, o trabalho para desenvolver o boletim está sendo muito mais fácil e prazeroso.
Para inaugurar a nova fase do
TrekkerCultura, vamos falar de um episódio da série clássica de Jornada nas
Estrelas, Space
Seed (Semente do Espaço), que serviu de base àquele que considero o melhor filme
para cinema com Kirk & Cia: The Wrath of Khan (A Ira de Khan). Pegue
este filme na locadora (ou na sua estante, se você é um trekker de verdade) e repare na
cena em que Chekov descobre uma fivela com o nome Botany Bay e deduz, aflito, que
aquele pode ser o planeta para onde Khan fora despachado junto com sua turma. A câmera
dá um close numa estante de livros, entre os quais está Paradise Lost
(Paraíso Perdido). Não é por acaso que aquele livro está ali (aproveite para ver o
filme todo e chorar no final, quando Spock morre. Eu sempre sinto um nó na garganta).
Pegue agora o episódio
Space Seed (você também deve tê-lo na estante, não é?) e preste atenção na cena final, em que o Capitão Kirk decide deixar Khan e sua tripulação no planeta Ceti Alpha V. Quando Kirk pergunta se ele está pronto para dominar um planeta inóspito, Khan devolve a seguinte pergunta: "Você já leu Milton, Capitão?" Rapidamente, Kirk entende a mensagem. Ele pode não ser um apaixonado pelos livros, como Picard, mas conhece bem literatura e explica a um envergonhado Scotty (tudo bem, Scotty, você não está sozinho) o significado da mensagem: Khan estava se referindo a uma passagem em que Lúcifer diz ser melhor reinar no Inferno do que servir no Céu. Mas Kirk não entra em detalhes. Não explica quem é Milton nem de qual de suas obras foi citada a passagem. É aí que o TrekkerCultura entra em ação: Milton é considerado o segundo maior escritor da língua inglesa -- depois de Shakespeare -- e a obra que contém aquela passagem é Paradise Lost, justamente um daqueles livros da estante de Khan.
Paraíso Perdido fala, em seus doze capítulos (chamados "livros") e mais de 10.500 versos (isso mesmo, dez mil e quinhentos!) sobre a queda de Lúcifer e o pecado original. Lúcifer, como se sabe, é um dos nomes que se dá ao diabo. Antes de criar o mundo e o homem, Deus vivia no céu com seus anjos. Um desses anjos, Lúcifer, rebelou-se contra Deus e foi expulso do Céu, sendo mandado para o Inferno junto com outros anjos rebelados. Lúcifer (que, no poema de Milton é chamado Satan (Satanás), sabe que, na verdade, o Céu e o Inferno estão dentro da mente de cada um; que a mente pode transformar o Céu num Inferno e vice-versa. Portanto, já que sua mente não vai mudar, não importa onde ele esteja, é melhor reinar no Inferno do que servir no Céu. Eis os versos:
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(Book I, 251-263)
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O Satanás de John Milton não é um personagem fácil, óbvio.
É complexo e ambíguo. Às vezes até nos identificamos com ele em suas dúvidas e
ambigüidades. Mas acho que era justamente isso que Milton queria mostrar: Céu e Inferno
são, de fato, o que o Homem carrega dentro de si. (Uma curiosidade: no filme O Advogado do Diabo, Al
Pacino faz o papel do próprio Satanás, em
pessoa. Lembra-se do nome do personagem? Pois é, é John Milton, uma inequívoca alusão
ao poeta inglês e sua obra mais famosa. Al Pacino, numa entrevista, revelou que leu
Paradise Lost inteiro para compor seu personagem).
Quatro anos depois de Paradise Lost, Milton publicou Paradise Regained (Paraíso Reconquistado), uma seqüência do primeiro poema, em que Jesus vem à Terra reconquistar o que Adão havia perdido por influência de Satanás. Aliás, o livro de Khan é uma compilação dessas duas obras, e não só Paradise Lost.
No episódio Space Seed, Khan se compara a Lúcifer: melhor reinar num planeta inóspito do que servir, digamos, na Enterprise. A Enterprise, então, seria o Céu... Nesse caso, o Capitão Kirk seria Deus?! Bem, deixa pra lá. O fato é que Khan não conseguiu reinar sobre nada, já que Ceti Alpha VI, o planeta vizinho, explodiu e espalhou ondas de choque sobre Ceti Alpha V, destruindo quase tudo. Quando encontra Chekov (É a velha história. Khan diz a Chekov, "Eu nunca esqueço um rosto". Mas Chekov ainda não fazia parte da tripulação da Enterprise no episódio Space Seed! Alguém brincou, dizendo que Chekov era um mero cadete na época, trabalhando lá embaixo na engenharia, e encontrou Khan por acaso no banheiro da Enterprise), ele vê uma chance de se vingar de Kirk e torna-se completamente obsessivo com essa idéia. Essa obsessão tem a ver com um outro livro que estava na estante de Khan. Mas essa é outra história, que fica para o próximo boletim. Até lá. Vida longa e próspera!
Agradecimentos: Edson Santos