TrekkerCultura |
TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 18 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em fevereiro de 1999. |
![]()
As citações literárias em Jornada nas
Estrelas nem sempre estão no roteiro. Às vezes podem estar no título de um
episódio ou filme, e disso há vários exemplos: os títulos dos episódios All Our Yesterdays (Todos os Nossos Ontens),
Dagger of the Mind (O Punhal Imaginário)
e The Conscience of
the King (A Consciência do Rei), da série clássica, por exemplo, foram todos
tirados de peças de Shakespeare (veja TrekkerCultura 8,
9 e 10). Neste boletim vamos falar do
episódio This Side of
Paradise (Este Lado do Paraíso), aquele em que Spock, sob
influência dos esporos de uma planta, se apaixona por Leila
Calomi e faz coisas impensáveis para um vulcano, como brincar dependurado numa
árvore. O título desse episódio saiu do poema Tiare Tahiti (Taiti),
do poeta inglês Rupert Brooke (fotos).
Rupert
Brooke nasceu em 3 de agosto de 1887. Já na
escola, começou a revelar seus talentos como poeta. Depois que se formou na faculdade - a
famosa e tradicional King's College, em Cambridge, Inglaterra -, foi convidado a ser um de
seus professores. Antes de aceitar o cargo, porém, resolveu fazer uma viagem pelo
mundo.
Ele estava então com 26 anos, em 1913. Foi a Nova York, Canadá, São Francisco, Nova
Zelândia, até que resolveu visitar as ilhas da
Polinésia Francesa, no Oceano Pacífico.
Na maior dessas ilhas, o Taiti (não confundir com Haiti, na América Central!), conheceu
uma bela nativa chamada Mamua, filha de um chefe local. Os dois se
apaixonaram e Rupert Brooke resolveu ficar morando com ela na ilha. Sua coleção de
poemas chamada The South Seas (Os Mares do Sul) foi inspirada nos meses em que viveu no
Taiti.
Depois de quase um ano, seu dinheiro
acabou e, além disso, ele teve uma séria inflamação, sendo obrigado a retornar à
Inglaterra. Chegou a seu país em 5 de junho de 1914. Não se sabe se tinha planos de
voltar à ilha ou assumir seu cargo na King's College, mas um fato novo veio mudar seus
planos: a Primeira Guerra Mundial. "Bem, se o Armagedom está aí, suponho que se
deva ir para lá", disse ele a seus amigos. No dia 15 de setembro estava se alistando
na Marinha como soldado. Lutou em algumas frentes de batalha e, durante a guerra, escreveu
seus poemas mais famosos.
Infelizmente, sua carreira - tanto como soldado como poeta - foi muito curta. Em 23 de abril de 1915, somente sete meses depois de ter se tornado soldado, morreu em decorrência de uma infeção, a bordo de um navio-hospital francês, que estava na Grécia. Ele tinha apenas 28 anos. Seu corpo foi enterrado lá mesmo, em Skiros, uma das ilhas gregas. Até hoje, quem for lá verá uma cruz de madeira com seu nome, data de nascimento e morte. A Inglaterra toda entristeceu-se com a morte prematura do poeta. Até Winston Churchill escreveu um artigo elogioso ao poeta morto no jornal inglês The Times. Rupert tornou-se um mito, um símbolo da juventude e dos talentos perdidos na Primeira Guerra Mundial.

O título do episódio This Side of Paradise
(Este Lado do Paraíso) foi retirado do poema Tiare Tahiti (Taiti),
escrito pelo poeta em homenagem à ilha do Taiti, no meio do Oceano Pacífico, onde o
poeta viveu com a bela nativa Mamua. Dizem que eles teriam tido uma
filha, morta em 1990. Mamua o apelidou de "Pupure", que na
língua local significa "de pele e cabelo claros". De fato, além de ter sido um
poeta de talento, Rupert Brooke chamava a atenção de todos - homens e mulheres - por sua
extrema beleza física: era loiro, alto, de olhos azuis, atlético (confira nas fotos ao
lado). Adorava esportes: jogava futebol, tênis e nadava muito bem.
No poema Tiare Tahiti (Taiti), o poeta fala a Mamua sobre o Paraíso que - segundo os sábios - os espera após a morte. É um Paraíso onde não existem coisas físicas, apenas espirituais. Ele vai descrevendo esse Paraíso Celestial mas, no fim, chega à conclusão de que vale mais a pena usufruir "este lado do paraíso", ou seja, a vida e os prazeres terrenos. E "este lado do paraíso" para Rupert Brooke, naquele momento, era aquela exótica ilha, ensolarada, perdida no meio do oceano; e aquela bela nativa, de pele morena, que dançava sensualmente sob as árvores, e com quem nadava à noite na praia.
E o que se transformou num "paraíso" para
Spock, no episódio Este Lado do Paraíso? O paraíso era o
planeta Omicron Ceti III, onde todos viviam em harmonia, com paz e amor; o paraíso era
poder amar a bela Leila. Lembram-se do que ele diz no finalzinho do episódio? "Pela
primeira vez, eu fui feliz". Infelizmente, era uma felicidade falsa, criada
artificialmente pelos esporos parasitas (que teriam o mesmo efeito de uma droga).
Com certeza, o roteirista do episódio conhecia a vida e obra de Rupert Brooke, e traçou um paralelo entre a experiência do poeta no Taiti e a de Spock, no planeta Omicron Ceti III. Leia a seguir a íntegra do poema. Eu mesma "cometi" uma tradução (traduzir poesia é fogo!), por não ter encontrado nenhuma feita por alguém mais abalizado...
Tiare Tahiti |
Taiti |
|
Mamua, when our laughter ends, |
Mamua, quando nosso riso cessar, |
|
And hearts and bodies, brown as white, |
E nossos corações e corpos, marrom e branco, |
|
Are dust about the doors of friends, |
Virarem pó na porta de nossos amigos, |
|
Or scent ablowing down the night, |
Ou fragrância soprando pela noite, |
|
Then, oh! then, the wise agree, |
Então, oh! então, os sábios concordam, |
|
Comes our immortality. |
Vem a imortalidade. |
|
Mamua, there waits a land |
Mamua, lá uma terra nos espera |
|
Hard for us to understand. |
Difícil de entender. |
|
Out of time, beyond the sun, |
Além do tempo, além do sol, |
|
All are one in Paradise, |
Tudo é uma coisa só no Paraíso, |
|
You and Pupure are one, |
Você e Pupure são um, |
|
And Tau, and the ungainly wise. |
E Tau, e os canhestros sábios... |
|
There the Eternals are, and there |
Lá estão os Eternos, e os |
|
The Good, the Lovely, and the True, |
Bons, os Encantadores e os Verdadeiros, |
|
And Types, whose earthly copies were |
E Modelos, cujas cópias terrenas eram |
|
The foolish broken things we knew; |
As coisas incompletas que conhecíamos; |
|
There is the Face, whose ghosts we are; |
Lá está a Face, cujos fantasmas somos nós; |
|
The real, the never-setting Star; |
O real, a Estrela que nunca se põe; |
|
And the Flower, of which we love |
E a Flor, das quais adoramos as sombras |
|
Faint and fading shadows here; |
Débeis e desvanecidas aqui; |
|
Never a tear, but only Grief; |
Nunca uma lágrima, apenas Tristeza; |
|
Dance, but not the limbs that move; |
Dança, mas não membros que se movem; |
|
Songs in Song shall disappear; |
Músicas na Música desaparecerão; |
|
Instead of lovers, Love shall be; |
Ao invés de amantes, haverá Amor; |
|
For hearts, Immutability; |
Para os corações, Imutabilidade; |
|
And there, on the Ideal Reef, |
E lá, no Recife ideal, |
|
Thunders the Everlasting Sea! |
Troveja o Mar Eterno! |
|
And my laughter, and my pain, |
E meu riso, e minha dor, |
|
Shall home to the Eternal Brain. |
Irão morar no Cérebro Eterno. |
|
And all lovely things, they say, |
E todas as coisas encantadoras, dizem, |
|
Meet in Loveliness again; |
Encontram-se no Encanto de novo; |
|
Miri's laugh, Teipo's feet, |
O riso de Miri, os pés de Teipo, |
|
And the hands of Matua, |
E as mãos de Matua, |
|
Stars and sunlight there shall meet, |
Estrelas e a luz do sol lá se encontrarão, |
|
Coral's hues and rainbows there, |
As cores dos Corais e do arco-íris, |
|
And Teura's braided hair; |
E as tranças de Teura; |
|
And with the starred `tiare's' white, |
E o branco estrelado de Tiare, |
|
And white birds in the dark ravine, |
E os pássaros brancos no escuro desfiladeiro, |
|
And `flamboyants' ablaze at night, |
E as brilhantes chamas à noite, |
|
And jewels, and evening's after-green, |
E jóias, e o verde-escuro da noite, |
|
And dawns of pearl and gold and red, |
E alvoradas de pérola, ouro e vermelho encontrarão, |
|
Mamua, your lovelier head! |
Mamua, sua cabeça muito mais encantadora! |
|
And there'll no more be one who dreams |
E não haverá mais quem sonhe |
|
Under the ferns, of crumbling stuff, |
Debaixo das samambaias, de frágil matéria |
|
Eyes of illusion, mouth that seems, |
Olhos de ilusão, boca que parece |
|
All time-entangled human love. |
Sempre entrelaçada no amor humano. |
|
And you'll no longer swing and sway |
E você não vai mais dançar e balançar, |
|
Divinely down the scented shade, |
Divinamente, à sombra cheirosa, |
|
Where feet to Ambulation fade, |
Onde os pés no Movimento desaparecem, |
|
And moons are lost in endless Day. |
E luas se perdem no Dia interminável. |
|
How shall we wind these wreaths of ours, |
Como vamos fazer estas nossas guirlandas |
|
Where there are neither heads nor flowers? |
Onde não há cabeças nem flores? |
|
Oh, Heaven's Heaven! -- but we'll be missing |
Oh, o Céu é o Céu! - mas vamos sentir falta |
|
The palms, and sunlight, and the south; |
Das palmeiras, da luz do sol e do sul; |
|
And there's an end, I think, of kissing, |
E acabam, creio, os beijos, |
|
When our mouths are one with Mouth. . . . |
Quando nossas bocas forem uma Boca . . . |
|
Tau here', Mamua, |
'Tau here', Mamua, |
|
Crown the hair, and come away! |
Coroe seu cabelo, e venha! |
|
Hear the calling of the moon, |
Ouça o chamado da lua, |
|
And the whispering scents that stray |
E as fragrâncias sussurrantes que vagam perdidas, |
|
About the idle warm lagoon. |
Pela quente, preguiçosa lagoa. |
|
Hasten, hand in human hand, |
Vamos rápido, de mãos dadas, mãos humanas |
|
Down the dark, the flowered way, |
Pelo caminho escuro e florido, |
|
Along the whiteness of the sand, |
Pela brancura da areia, |
|
And in the water's soft caress, |
E no carinho suave da água, |
|
Wash the mind of foolishness, |
Banhar a mente de bobagens, |
|
Mamua, until the day. |
Mamua, até amanhecer. |
|
Spend the glittering moonlight there |
Passar o luar cintilante lá, |
|
Pursuing down the soundless deep |
Procurando no fundo silencioso |
|
Limbs that gleam and shadowy hair, |
Braços e pernas brilhantes e cabelos escuros, |
|
Or floating lazy, half-asleep. |
Ou flutuando preguiçosamente, quase dormindo. |
|
Dive and double and follow after, |
Mergulhar e brincar na água, |
|
Snare in flowers, and kiss, and call, |
Emaranhar-nos em flores, e beijar e invocar, |
|
With lips that fade, and human laughter |
Com lábios que perdem a cor, riso humano |
|
And faces individual, |
E rostos individuais, |
|
Well this side of Paradise! . . . |
Bem, este lado do Paraíso ! . . . |
|
There's little comfort in the wise. |
Não há muito consolo nos sábios. |
| Papeete, February 1914 | Papeete, fevereiro de 1914 |
Agradecimentos: Marcos
Kleine, Daniel Muntaner e Edson Santos
Ouça o
poema no original recitado pelo ator inglês Douglas
Hodge.