TrekkerCultura
TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 7 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em 1992. |
Henry Cuyler Bunner, um contista americano de fins do século XIX, disse certa vez, num comentário bem-humorado, que "Shakespeare era um grande dramaturgo que ganhava a vida escrevendo coisas para serem citadas".
A brincadeira procede. São incontáveis as citações de
Shakespeare em filmes, obras literárias as mais diversas, peças de teatro e até desenhos animados; além de discursos, ensaios, artigos e por aí afora. Jornada nas Estrelas não foge à regra, pois tanto nos episódios da série quanto nos filmes para o cinema, as citações de Shakespeare talvez só percam, em número, para as citações da Bíblia. STAR TREK VI - THE UNDISCOVERED COUNTRY (A TERRA DESCONHECIDA) que o diga - o filme é puro Shakespeare, a começar pelo título. Mas, antes de fazer um boletim sobre essas citações, vamos dedicar este número ao seu autor.
William Shakespeare
Na verdade, pouco se sabe sobre a biografia de Shakespeare e tal mistério fez com que surgissem as mais diversas especulações sobre o bardo inglês. A autoria de suas peças, por exemplo, foi questionada por pelo menos dois séculos. Alguns estudiosos a atribuíram ao chanceler Francis Bacon (1561-1626); outros elegeram o poeta e dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564-93) como o verdadeiro autor das obras. Os primeiros 126 dos 154 sonetos que Shakespeare escreveu foram dedicados a um certo "belo jovem" (a fair young man), o que deu margem a especulações sobre sua possível homossexualidade. Os últimos sonetos foram dedicados a uma "dama morena" (dark lady), outra misteriosa figura na vida do dramaturgo. Nem o famoso retrato do escritor, impresso na primeira edição de suas obras (foto ao lado), escapou da dúvida quanto à sua identidade. Alguns anos atrás, uma pesquisadora em computação gráfica da AT&T, Lilian Schwartz, afirmou que se trata, na verdade, da imagem da rainha Elizabeth I travestida.
Deixando as especulações de lado, é sabido que entre 1592-94, quando os
teatros foram fechados por causa da peste (explicação dos puritanos da época: "A
causa da peste é o pecado. A causa do pecado é o teatro. Logo, observando bem, a causa
da peste é o teatro"), Shakespeare escreveu seus poemas Vênus e Adônis
e A Violação de Lucrécia (The Rape of Lucrece). Os estudiosos
concordam, no entanto, que Shakespeare começou a redigir para o palco já na década de
1580. Em 1594, ele juntou-se à companhia teatral Homens de Lord Chamberlain, depois
conhecida como Os Homens do Rei (The King's Men). Foi essa companhia, então a mais
importante de Londres, que, em 1598, construiu o Globe Theatre, onde foram representadas
as mais importantes peças de Shakespeare, que, àquela altura, já era um de seus
sócios. O teatro foi totalmente destruído por um incêndio em 1613, reconstruído e
posteriormente demolido pelos puritanos, em 1644. Hoje, existe uma réplica do Globe
Theatre em Londres.
Shakespeare adquiriu fama e fortuna em Londres, conseguindo inclusive um brasão nobiliárquico, embora não houvesse nobres em sua família. Mas, na Inglaterra elizabetana, a concessão de títulos da nobreza a burgueses era fato comum. Por volta de 1610, não se sabe por que razão, Shakespeare se retirou novamente para Stratford, lá ficando até o dia de sua morte, coincidentemente o mesmo de seu nascimento, 23 de abril de 1616. Diz a lenda que, estando ele já enfermo, teve seu fim acelerado por uma bebedeira patrocinada pelos amigos Ben Johnson e Michael Drayton, que o foram visitar em Stratford.
As primeiras obras de Shakespeare incluem
Posteriormente, Shakespeare retornou para a história e a tragédia com peças tais como
Henrique IV Partes I e II (Henry IV Part I, 1596; Henry IV Part II, 1597), Henrique V (Henry V, 1599), Júlio César (Julius Caesar, 1599), Troilo e Créssida (Troilus e Cressida, 1601-02), Timão de Atenas (Timon of Athens, 1605-09), Coriolano (Coriolanus, 1607-08), Antônio e Cleópatra (Antony and Cleopatra, 1606-07); Romeu e Julieta (Romeo and Juliet, 1595-06), Hamlet (1600-01), Otelo (Othello, 1605-06) e MacBeth ( (1605-06).Entremeando essas peças, estavam, além de seus sonetos, algumas comédias e tragicomédias românticas, como
Tudo Está Bem Quando Acaba Bem (All's Well That Ends Well, 1602-03), Medida Por Medida (Measure For Measure, 1604-05), As Alegres Comadres de Windsor (The Merry Wives of Windsor, 1597), Péricles (Pericles, 1607-08), Cimbelino (Cymbeline, 1609-10), Conto de Inverno (The Winter's Tale, 1611) e A Tempestade (The Tempest, 1613), sua última peça.
Toda a sua extensa obra faz parte do patrimônio cultural da Inglaterra, bem como de todos os outros países de língua inglesa. Suas peças são até hoje encenadas, com sucesso, em países do mundo todo. Muitas de suas célebres passagens passaram a fazer parte da linguagem cotidiana, adquirindo a forma de verdadeiros ditados populares. Até um item de seu testamento ficou famoso. Quando o documento já estava pronto, ele lembrou-se de incluir a mulher, Anne, com quem não se dava muito bem. E, entre duas linhas, inseriu a seguinte frase: "item - à milha mulher deixo a minha segunda melhor cama e os móveis"(item - I give unto my wife my second best bed with the furniture). A melhor cama ele deixou para a filha, Susanna, e seu marido. Em inglês, essa frase é citada para ilustrar as ironias do casamento.
"Tratando-se de Shakespeare", disse o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), "sempre se acha que não se falou o bastante; é como se o nome de Shakespeare fosse infinito". Talvez isso seja verdade. O fato é que, a partir deste número, vamos falar muito do escritor preferido do
Capitão Kirk (e Picard). Veremos que há muito mais Shakespeare em Jornada nas Estrelas do que sonha nossa filosofia!