TrekkerCultura
TrekkerCultura® - Boletim Cultural - N. 8 |
| Frota Estelar Brasil |
| Boletim publicado em 1992. |

Quem nunca ouviu a famosa pergunta "Ser ou não ser, eis a questão" (To be or not to be, that is the question)? É o início de um dos mais célebres monólogos da literatura, o do personagem Hamlet, da peça homônima de Shakespeare. Foi dessa peça que retiraram a frase The Conscience of the King (A Consciência do Rei), título do mais explicitamente shakespeareano episódio da série clássica de Jornada nas Estrelas, do qual falaremos neste boletim. A peça conta a história do jovem Hamlet, príncipe da Dinamarca, inconformado com o fato da mãe, Gertrudes, ter se casado com Cláudio, irmão do marido, menos de dois meses depois da morte deste. Tendo quase certeza de que o pai fora assassinado pelo próprio irmão, Hamlet nem sequer compareceu ao casamento da mãe, cujo comportamento lhe parecia inaceitável. Algum tempo depois, chega aos ouvidos de Hamlet o rumor de que um fantasma parecidíssimo com o finado rei, seu pai, fora visto por guardas do palácio, à meia-noite, duas ou três noites seguidas. Horácio, amigo íntimo de Hamlet, confirmou a aparição, pois também o havia visto.
Assombrado pelo relato, Hamlet decidiu montar
guarda com os soldados, pois, pensou consigo, um fantasma não aparece à toa, mas deve
ter algo a dizer. Quando veio a noite, postou-se de guarda com Horácio e
Marcelo, um dos soldados, sobre a plataforma onde o espectro costumava
aparecer. De repente, receberam o aviso de Horácio de que o fantasma
estava chegando. Amedrontado pela visão, Hamlet roga aos anjos e
ministros celestiais que o defendam, pois não se sabe se aquele é um espírito bom ou
mau: "Angels and
ministers of grace defend us". Foi justamente com esta passagem que o Dr. McCoy invocou a proteção divina em Jornada nas Estrelas IV - A Volta para Casa (o filme das baleias), quando Spock
informou que teria de fazer cálculos complicadíssimos baseado em dados de sua própria
memória. Spock mostrou, porém, que não havia problemas com sua
memória, pois identificou com precisão a passagem de Hamlet: Ato I,
cena 4.
O fantasma, então, chama Hamlet, que se mostra
cauteloso a princípio (Esta é a cena que o ator Karidian - na verdade, Kodos,
o Carrasco - está representando na Enterprise quando o Tenente
Kevin Riley aparece atrás das cortinas, com um phaser, disposto a matá-lo).
Gradativamente, porém, Hamlet perde o medo e segue o fantasma para um
lugar mais afastado. Quando estão a sós, o espírito confessa que é o fantasma de seu
pai, cruelmente assassinado por Cláudio, tio de Hamlet,
que pretendia sucedê-lo em sua cama e em seu trono, exatamente como o jovem príncipe
havia suspeitado. Um dia em que estava dormindo no jardim, como era seu hábito, o irmão
traiçoeiro veio sorrateiramente e verteu um veneno terrível em seus ouvidos. Assim, o
rei morreu dormindo. Agora, ele queria ver sua morte vingada pelo filho. Hamlet
prometeu seguir as instruções do espectro, que logo desapareceu.
Apesar do desejo de vingança, Hamlet
considerava odioso o ato de tirar a vida de um semelhante, principalmente pelo fato de tal
pessoa, apesar de assassino e usurpador, ser o marido de sua mãe. Além disso, ainda lhe
atormentavam o espírito algumas dúvidas sobre o espectro. E se ele fosse o diabo? Diziam
que o diabo tinha poder de assumir várias formas. E se ele assumira a forma de seu pai e,
aproveitando-se de sua fraqueza e melancolia, viera arrastá-lo ao assassínio?
Enquanto se debatia internamente, apareceram na cidade alguns
comediantes de uma companhia teatral que, outrora, costumava diverti-lo. Hamlet
recebeu muito bem os atores e foi então que teve uma brilhante idéia. Ouvira dizer que
criaturas culpadas, assistindo a uma peça, são tão profundamente tocadas pelas cenas,
que acabam confessando todos os seus crimes. Pediu então ao diretor da peça que
incluísse na apresentação daquela noite algumas falas que ele havia escrito. Na
verdade, o que ele queria é que fosse representada uma cena parecida com o assassínio do
pai, para que ele pudesse observar as reações do rei, seu tio. A peça seria a coisa com
ele pegaria a consciência do rei:
"The play's the thing / Wherein I'll catch the
conscience of the King" (Ato 2, cena 2)
"A peça é a coisa com que pegaremos a
consciência do Rei" (Ato 2, cena 2)
E foi através de uma peça que Kodos, o
Carrasco, foi pego. Só que, ao invés de fazer parte de platéia, ele estava no
palco.
Bem, o rei Cláudio caiu na armadilha: assim que
viu a cena do assassínio, mudou de cor; e, simulando ou talvez sentindo súbito
mal-estar, deixou o teatro. Com a saída do rei, encerrou-se a representação da peça. Hamlet,
todavia, vira o suficiente para convencer-se de que o fantasma dissera a verdade. Antes,
porém, que o príncipe pudesse elaborar seu plano de vingança, foi chamado pela rainha
para uma conferência particular. A rainha convocara o filho, a pedido do rei, com o
intuito de dizer-lhe o quanto desapontara a ambos seu recente comportamento. Querendo
saber tudo o que se passaria na conversa, o rei ordenou a Polônio, seu
conselheiro e pai de Ofélia, a quem Hamlet amava, que
se escondesse atrás das cortinas da alcova da rainha, de onde poderia ouvir tudo sem ser
visto. Hamlet começou a discutir com a mãe, condenando seu
comportamento leviano para com a memória de seu pai, quando, de repente, percebeu alguém
atrás das cortinas. Pensando tratar-se do rei, fincou sua espada no conselheiro,
matando-o.
A desgraçada morte de Polônio forneceu ao rei
pretexto para afastar o príncipe do reino. Mandou-o à Inglaterra, com dois
guarda-costas, alegando fazer isto para sua própria segurança. No caminho, porém, Hamlet
descobriu que o rei ordenara que o matassem assim que lá pusesse os pés. Livrou-se,
então, dos guardas e retornou à Dinamarca. Lá chegando, deparou com o funeral de Ofélia,
sua amada, que, ensandecida pela morte do pai, havia se afogado no rio. O irmão da moça,
Laertes, ao reconhecer Hamlet, causador da morte de seu
pai e de sua irmã, agarrou-lhe o pescoço, como a um inimigo, até que os presentes os
separassem. Concluído o sepultamento, Hamlet foi desculpar-se com Laertes
e os nobres jovens pareceram reconciliar-se.
Aproveitando-se da dor e da ira de Laertes, o
rei Cláudio, tio de Hamlet, viu aí uma oportunidade
para eliminar o sobrinho. Persuadiu o irmão de Ofélia, a pretexto de
celebrarem a reconciliação, a propor a Hamlet um torneio de esgrima.
Depois de tudo acertado, o rei convenceu Laertes a usar uma espada
envenenada. A disputa então começou e, passados alguns minutos, Laertes
feriu Hamlet com sua espada. Sem saber da extensão da perfídia, na
confusão da luta, Hamlet trocou sua arma inocente pela lâmina mortal de
Laertes e, num bote, desferiu um golpe no adversário. O feitiço, assim,
virou-se contra o feiticeiro.
Nesse instante, a rainha gritou que fora envenenada.
Inadvertidamente, bebera de uma taça que o traiçoeiro Cláudio havia
preparado para Hamlet, caso a espada de Laertes
falhasse. Vendo a rainha cair morta na sua frente, Hamlet ordenou que
todas as portas fossem fechadas para que se pegasse o assassino. Laertes
então disse que aquilo não seria necessário - e, sentindo que sua vida se esvaía pelo
ferimento recebido, confessou a infâmia que praticara e que também o vitimara. E,
pedindo perdão, morreu, não sem antes acusar o rei de ser o mentor de toda a trama. Hamlet,
vendo que seu fim também se aproximava, voltou-se repentinamente contra o pérfido tio e
trespassou-lhe o coração com a espada envenenada, cumprindo assim a promessa que fizera
ao espectro de seu pai de matar seu assassino. Já moribundo, voltou-se para o amigo Horácio,
que assistira à fatal tragédia, pedindo-lhe que contasse a todos a sua história. Dito
isso, seu coração cessou de pulsar.
Naquele momento, adentra o salão um jovem nobre, que acabara de
retornar vitorioso de uma guerra e exclama:
"This quarry cries on havoc. O proud death, /
What feast is toward in thine eternal cell, / That thou so many princes at a shot / So
bloodly hast struck?"
"Tantos cadáveres... / Uma visão de horror /
Oh, morte orgulhosa, que banquete prepararam em tua / Cela eterna que tantos príncipes
ceifaste / Com um só golpe?" (Ato V, cena 2)
E foi esta a fala adaptada e reproduzida pela bela e enlouquecida
Lenore ao ver o pai, Anton Karidian -
ou melhor, Kodos, o Carrasco - morto no palco
Hamlet já foi encenada milhares de vezes, em palcos do
mundo todo, inclusive no Brasil. Patrick Stewart (o
Capitão Picard), já viveu o Rei Cláudio numa dessas montagens
(foto ao lado). Uma vez fui ver a montagem do diretor Zé Celso, no SESC
Pompéia, São Paulo. Foi a primeira vez que o texto integral foi encenado no
Brasil. Resultado: a peça durou 7 (sete!!) horas, contando o tempo dos quatro intervalos.
Fofoca: quem fez o papel do Rei Cláudio foi o ator Alexandre
Borges, e a atriz Júlia Lemertz fez Gertrudes.
Os dois começaram a namorar durante a peça (numa cena em que aparecem nus). Estão
juntos até hoje (06/01/99).
Além disso, já foram feitas várias versões para cinema, inclusive uma com o astro Mel Gibson no papel de Hamlet.
História adaptada do livro TALES FROM SHAKESPEARE, dos irmãos Charles e Mary Lamb. Traduzido e publicado no Brasil pela Editora PAUMAPE.
Clique aqui para ver uma lista dos principais filmes baseados em Hamlet.